terça-feira, junho 27, 2006

Matematizava tudo. Somava todas as suas experiências de vida e tentava dar-lhes um sentido, uma direcção, um vector que os orientasse. No limite para infinito, tudo para ele tinha uma extrapolação possível para a ciência dos números.

Pacífico, subtraía-se a agitações, multiplicava-se em desculpas para evitar confusões. Amigo do seu amigo, fraccionava o seu tempo para chegar a todos, dividia-se em papéis, adicionava-se facilmente a paródias.

Na sua vizinhança de raio épsilon, algumas ruas paralelas, outras perpendiculares, nos cruzamentos, nas intersecções, toda a gente o conhecia. Não falhava uma reunião, uma junção de conjuntos. Nessas alturas, mostrava as suas cónicas: contava parábolas, exagerava em hipérboles e descrevia círculos.

Era extremamente profissional. Perante desafios, formalizava problemas, equacionava soluções, elevava-se ao expoente máximo a maximizar as suas funções. E não se contentava com máximos locais, só globais. Para ele, não existiam restrições, mesmo que não activas. Integrava por partes, derivava resoluções.

Quando tudo parecia demasiado complexo, fora dos números reais, estabelecia condições de primeira ordem. Em última análise, primitivizava: quando as expressões são demasiado extensas, é necessário simplificar, levar tudo ao mesmo denominador e fazer os cortes possíveis.

Honesto e recto, integral e verdadeiro, culto e educado. O espectro dos seus interesses tinha uma elevada dispersão, uma variância astronómica. De ideias muito liberais, centrado nas suas convicções, era demasiado enviesado para poder ser representativo do indivíduo médio.

Tantos argumentos levaram a que um dia chegasse a um ponto de acumulação. Havia atingido o limite superior para o qual convergia agora assimptoticamente. Estava estagnado, sentia-se preso num intervalo fechado. Só lhe restava regredir. Começou de imediato a sentir-se obtuso, o seu ângulo de visão era cada vez mais agudo. Vinham-lhe à cabeça curvas decrescentes em referenciais cartesianos.

Resolveu fazer um ensaio de hipóteses. Descobriu que a probabilidade de ainda ter uma vida normal havia decaído, o intervalo de confiança afunilara. Vivia agora numa constante indeterminação que nem a regra de Cauchy/Hôpital conseguia simplificar.

Até que um dia percebeu que se estava a reduzir ao absurdo. Então, por contradição, achou-se provado.